…. e quando o outro não quer?
A vida duma relação raramente é um caminho a direito e tranquilo. Assim como para os indivíduos, crescer pode ser muito desafiante, também as relações crescem e se desenvolvem no meio de desafios.
Quando esses desafios se tornam avassaladores, muitas pessoas instintivamente procuram ajuda de forma a ter ferramentas que as ajudem a ter uma relação saudável. Mas…e quando o outro não quer? O que acontece quando um dos parceiros, depois de pensar muito e depois de se dispor a desvendar as complexidades da vida em comum, toma o passo corajoso de propor terapia de casal…e o outro se mostra relutante em participar?
De repente….o que parecia que podia ser uma solução, pode transformar-se num peso adicional, pode ser mais um fator que parece dificultar a relação. De repente…a hipótese de haver um futuro comum ainda parece mais longínqua. De repente…aparece outra “ferida” aberta, dolorosa. A pessoa que quer terapia sente frequentemente uma mistura de frustração e desespero. Vê a terapia como uma forma proativa de melhorar a comunicação, resolver conflitos e sentir-se mais próxima de novo. A sua vontade de procurar ajuda surge, com frequência, depois de um processo de muita reflexão, acompanhada de esperança, mas quando a sua parceira ou parceiro recusa, pode sentir-se isolada e ignorada.
Mas a resistência à terapia pode estar emaranhada numa série de medos e crenças. Pode haver razões para esta resistência. O que parece ser um desinteresse profundo por parte do outro, pode não o ser…
Vulnerabilidade…Para muitas pessoas, a ideia de falar sobre problemas pessoais e da relação na frente de um estranho é aterrorizante. Preocupam-se em ser julgados, culpados, ou ter de enfrentar verdades desconfortáveis. A terapia é como uma porta fechada, e não se sabe o que está do outro lado…
Ceticismo…Algumas pessoas simplesmente não acreditam na terapia. Podem vê-la como um desperdício de tempo ou dinheiro, preferindo acreditar que os problemas se resolverão sozinhos ou que só podem ser resolvidos entre companheiros.
Evitamento de conflitos…O processo terapeutico com frequência pode tornar-se sinuoso e implica confrontar (in)diretamente tópicos difíceis. Uma pessoa que evita conflitos pode resistir à terapia para evitar entrar em discussões.
Postura defensiva…O parceiro resistente pode estar convencido de que todos os problemas são culpa do outro, ou pode recear que o terapeuta fique do lado da sua companheira ou companheiro. Esta mentalidade defensiva torna-os indispostos a ver o seu próprio papel nos problemas da relação.
Medo da mudança…Embora o objetivo seja melhorar a relação, a mudança pode ser assustadora. A pessoa resistente pode ter medo de alterar rotinas estabelecidas ou de ter de sair da sua zona de conforto, mesmo que a situação atual não seja saudável.
Experiências passadas negativas…Uma má experiência anterior com terapia, direta ou indireta, pode criar uma forte aversão a tentar de novo.
Então o que acontece?
Acontece que quando somos nós quem está pronto para a terapia, não podemos forçar o nosso parceiro. Podemos escolher tentar ou não tentar entender e compreender. E podemos fazer mais ainda:
Terapia individual…A terapia individual permite trabalhar os próprios sentimentos e comportamentos dentro da dinâmica da relação. Aprender a estabelecer limites saudáveis, melhorar as competências de comunicação e de escuta ativa, ganhar clareza sobre o que realmente se quer, são ferramentas que podem ser trabalhadas. A mudança positiva num dos membros do casal pode mudar toda a dinâmica da relação.
Mudança na abordagem…Muitas vezes é a forma e não o conteúdo da proposta de terapia que está em causa. Quando a relação está sob grande tensão, de forma automatica surge a crítica, o julgamento e a acusação. Com este enquadramento, é natural que a proposta de terapia seja apresentada como algo para “corrigir o que está estragado”. Isto pode, de facto, ser muito intimidante. Tentar focar em objetivos partilhados é uma boa bússola para desenvolver a conversa. Usar frases que comecem por “Eu” para expressar os sentimentos e necessidades. Com esta preocupação simples, é natural que a conversa saia do nível da acusação e culpa e flua para o nível do desejo de uma ligação mais próxima (desejada por ambos à partida).
Abordar os receios do outro com empatia…Se temos uma ideia das razões que levam à resistência, podemos tentar abordar esses medos diretamente e com empatia, oferecendo uma visão partilhada dos desejos de ambos. Por exemplo, “Não estou à procura de alguém que tome partidos; eu só quero um espaço neutro onde ambos possamos ser ouvidos.”, pode ser um excelente antídoto para indivíduos com medo de ser julgados pelo terapeuta, ou que receiem que o terapeuta se alie ao outro.
Sugerir uma sessão experimental….Uma sugestão de baixa pressão às vezes pode funcionar. Propor um compromisso curto, como apenas três sessões, para ver se ajuda. Isto pode fazer com que a ideia pareça menos assustadora.
Como muitos desafios na vida, esta é uma situação que requer paciência e uma compreensão clara das próprias necessidades. Embora não possamos forçar o nossos parceiro a participar, podemos optar por trabalhar em nós mesmos, ou mesmo na relação a partir da nossa perspetiva. Podemos decidir focar no crescimento individual e abordar a conversa com empatia e comunicação estratégica, quer isso leve ou não seu parceiro a juntar-se à terapia.
Embora a resistência de uma pessoa à terapia possa ser incrivelmente desanimadora, não significa o fim da esperança numa relação.



