A couple experiencing a tense moment as a woman walks out of the apartment.

… e quando não conseguimos caminhar a dois?

Todas as relações acabam mais cedo ou mais tarde por enfrentar desafios ou estar sujeitas a uma série de fatores que as colocam debaixo de stress. Os casais discutem, simplesmente. Discutem por causa de algo curriqueiro, sentem-se distantes, ou simplesmente parece que as coisas deixaram de ser como antes. É como se tivéssemos, sem nos darmos conta, perdido o “saber estar com o outro” que nos guiava outrora. Podemos até ter um norte, a esperança no projeto que construímos com o nosso parceiro. Mas o caminho pode tornar-se confuso e, para além de nos sentirmos perdidos, podemos não saber como voltar a caminhar a dois.

Neste ponto da nossa relação, a ideia de procurar ajuda exterior junto dum terapeuta pode parecer assustadora. Há inclusivamente quem pense que é um sinal de fracasso, como se se tratasse dum último recurso antes de desistir. Mas, na verdade, é precisamente o oposto: é um ato de coragem, uma aposta séria na possibilidade de construir algo mais forte e duradouro. É uma aposta num espaço seguro e neutro, onde o terapeuta tentará ajudar a desatar nós, tentará ajudar a que compreendam as emoções de ambos, e tentará ajudar a redesenhar padrões de comportamento que já não servem para o casal. Não é uma varinha mágica que resolve tudo da noite para o dia, mas sim um processo de redescoberta e reconstrução.

… comunicação

Muitas vezes, a raiz dos problemas numa relação é a falta de comunicação, ou, mais precisamente, a má comunicação. Falamos, mas não nos entendemos. Gritamos, mas não nos ouvimos. Quando um dos parceiros diz “Não te importas comigo!”, o que ele está a tentar dizer é “Sinto-me sozinho e preciso de sentir que me vês”. Quando o outro responde “Eu importo-me!”, está a defender-se, a não conseguir encarar a dor por detrás da acusação.

Na terapia, um dos primeiros objetivos é aprender a traduzir. O terapeuta atua como um tradutor emocional, ajudando cada um a expressar as suas necessidades e medos de uma forma que o outro consiga realmente ouvir e entender. Ferramentas como a escuta ativa são introduzidas. Em vez de pensarmos na nossa próxima resposta enquanto o parceiro fala, somos desafiados a ouvir com o coração e a tentar perceber a emoção que a outra pessoa está a sentir.

… intimidade perdida

As meras preocupações do dia a dia, como o trabalho, os filhos, as logísticas todas que temos de assegurar, as contas para pagar, etc. podem tornar-se obstáculos à intimidade emocional e física. A conversa resume-se a “podes passar no supermercado amanhã?” ou “a que horas acaba a reunião?”, e os momentos de partilha íntima tornam-se raros, tão raros que acabam por desaparecer. Muitos casais já não sabem sequer definir intimidade. A intimidade não é apenas física; é a capacidade de sermos vulneráveis um com o outro, de partilharmos os nossos medos mais profundos, os nossos desejos mais espontâneos, sem medo de sermos julgados.

Na terapia, o foco pode ser reavivar esta “chama”. Passar uns minutinhos a conversar sem interrupções sobre algo que não seja a rotina com o nosso parceiro pode parecer fácil, mas é um autêntico desafio para muitos de nós. Dedicar um momento para um abraço e sentirem a presença um do outro é algo que muitos casais deixaram há muito de saber fazer. Pequenos momentos de ligação, quando praticados consistentemente, podem fazer milagres na reconstrução da ligação emocional.

.. não é culpa de ninguém

Um dos maiores alívios que a terapia de casal pode trazer é a noção de que não existe um “culpado”. O objetivo não é encontrar quem fez o quê de errado, mas sim entender o que está a acontecer na relação. O terapeuta não toma partidos, é antes de mais um facilitador. O foco é a relação em si, a dinâmica entre as duas pessoas, não as ações individuais.

Esta perspetiva de “nós contra o problema” em vez de “eu contra ti” muda tudo. Deixa de ser uma batalha para ser um trabalho de equipa. Em vez de tentarem “ganhar” a discussão, os parceiros aprendem a colaborar para encontrar uma solução que funcione para ambos.

… o caminho para a frente

Em última análise, a terapia de casal é um investimento. Não apenas de tempo e dinheiro, mas de emoções e de vulnerabilidade. Mas é um investimento na pessoa que se ama e na vida que se está a construir em conjunto. É uma oportunidade para descobrir não só como resolver os problemas, mas como prevenir que eles surjam no futuro.

Quando parece que não conseguimos caminhar a dois, a terapia de casal não é um sinal de que a relação está a acabar, mas sim um sinal de que o casal está disposto a lutar por ela. É um ato de amor, tanto por nós como pelo nosso parceiro.

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